
Sobre Formigas e Assassinos
escrito em 28/Maio/2008
Alguém deve se perguntar:
Que diabos de título é esse?
Pois bem, eu vou contar agora uma pequena história sobre uma formiga e um assassino.
Vamos usar a maravilhosa linguagem em primeira pessoa, ou seja, o eu, por que isso realmente aconteceu e foi comigo mesmo.
Estava eu a ligar a torneira do banheiro para lavar o rosto, estava cansado depois de um dia de trabalho seguido por uma aula estressante. Até aí tudo bem, em frente ao espelho me deixei acalmar pelo jato de água fria sobre meu rosto, até que percebi que derramei água em excesso, estava tudo escorrendo e transbordando pelo piso de azulejo. No momento não liguei muito, aquilo seria facilmente limpo com um rodo qualquer, mas uma visão me fez voltar o olhar de volta. No piso encharcado uma pequena formiga se mantinha estática, encoberta pela água. Juro que era a mesma que eu evitara pisar em cima no momento em que entrei.
Fiquei por um tempo olhando aquela pequena criatura ali, totalmente estática.
Fiquei perturbado comigo mesmo, por que estava preocupado com isso?
Qualquer outra pessoa simplesmente nem tinha olhado, mas eu, eu sou diferente.
Você pode não acreditar, mas eu já salvei centenas de insetos da sua morte cruel seja quando os coitados se debatem de cabeça para baixo, ou quando se afogam em gotas de água.
Então obviamente a visão daquela formiga marrom quase transparente iria exigir algum tipo de reação digamos “heróica" da minha parte.
Mas não. Eu esperei, esperei e esperei e o inseto não se movia.
Por que mexer nele? já deveria estar morto. Mas num lance de curiosidade eu me abaixei e dei um leve empurrãozinho na formiga, tentando tirá-la (ou pelo menos o seu corpo) daquela poça de água. Desafogamento feito, mas o inseto ainda estava vivo para minha grande surpresa.
Fiquei feliz, até dei um leve sorriso discreto como quem fez uma boa ação no dia, mas não estava contente, esperei demais. Ela estava o tempo toda viva, sufocando e agonizando no mar, e eu ali como um voyeur faz, apenas olhando.
Agora eu poderia sair e limpar a bagunça, mas não pude deixar de observar o estado triste e deplorável em que aquele ser se encontrava. Estava no mínimo com todas as patas retorcidas ou quebradas, se contorcia e agonizava agora no piso seco, tentava seguir em frente, mas suas antenas deviam estar emboladas. A formiga estava completamente desorientada e sem capacidade para se mover. Era agora apenas um bolo marrom molhado que dava voltas em torno de si mesma pelo chão, na tentativa de esticar uma de suas pernas dobradas.
Vou confessar que aquilo me atormentou dez vezes mais do que a visão do afogamento.
Perguntei-me se valia a pena sobreviver a uma agrura da vida para viver com maior sofrimento. Será que pessoas que vivem nessa condição estão realmente vivendo.
Concluí que no máximo isso é uma violenta sobrevivência, o sofrimento contínuo sem nenhum segundo de paz ou prazer.
O que devemos fazer com quem poderia estar descansando em paz, mas está aqui apenas respirando o ar de sua própria agonia acelerada?
Era uma pequena formiga marrom transparente, um inseto. Eu poderia fazer mais por ela do que poderia fazer por um humano.
Poderia dar um fim naquele sofrimento silencioso e incomodante.
Poderia matá-la.
Matar?
Por um fim no sofrimento.
Matar.
Era isso que eu ia fazer, mas eu não pensei no termo matar, simplesmente iria fazer um favor aquela criatura.
O mesmo rodo que usaria para limpar minha bagunça usaria para dar cabo da pobre. Segurei-o firme nas mãos, mas, o soltei.
"Quer saber deixa ela aí, ela vai conseguir se virar, vai andar e desaparecer na parede" pensei.
Então sai do banheiro.
Minutos depois voltei, e não gostei do que vi. Decididamente eu peguei aquele maldito rodo e o levantei em direção àquela maldita formiga. Iria macetá-la por completo.
Teria feito isso, mas o inseto por algum milagre desconhecido saiu caminhado perfeitamente pelo piso, como se nada mesmo tivesse acontecido.
Meu Deus, em um segundo eu iria matá-la, a fim de fazer um favor a bicha e ela estava agora ziguezagueando alegre e feliz.
Eu pensei que disso eu ao menos tirei uma grande lição.
Não importa o tempo e a condição, tudo sempre merece uma segunda chance.
Mais feliz agora do que quando a vi reviver pela primeira vez, eu fiquei me olhando como um retardado faz no espelho.
Finalmente eu sairia daquele banheiro e poderia “descansar em paz”.
Em direção a porta, depois de dois ou três passos, eu paro. De súbito ouvi um estalido seco, e senti algo gosmento molhando meus pés, tomei coragem e olhei.
Um conjunto desfigurado de patas antenas e sangue estavam grudados no meu pé direito.
Eu olhei em volta, não havia formiga alguma, era ela.
Depois de tudo, eu a havia matado sem querer.
Enfim, eu tive que ver toda a situação pelo lado bom; consegui acabar com a dura vida que devia ter aquela formiga no dia-a-dia de trabalho em busca de alimento e sobrevivência para seu formigueiro.
[Wanderson Sousa Kubrick]











